quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Uma vitória que conquista


Despretensiosa. Se existe uma definição para como foi a minha primeira visita à cidade de Vitória da Conquista, com certeza é esta palavra. Foi uma necessidade de trabalho. Simplesmente sai correndo da agência numa quarta-feira, pra chegar na Barra, arrumar uma mala e ir pra Conquista às 22h, sem data certa pra voltar.

Então, não deu tempo de criar alguma expectativa em relação à cidade. Honestamente, Vitória da Conquista nunca foi um nome que me despertou alguma vontade. Morro de São Paulo, Itacaré, Barra Grande, Chapada, esses sim são nomes que nunca deixaram de povoar minha mente. Mas Vitória da Conquista não. Só o que eu sabia de Conquista é que é a terceira maior cidade da Bahia, não tem litoral e é a localidade mais fria do estado. Minha vontade de vir aqui era zero, já que o que me amarra é uma praia, cidade pequena e o calor, sempre o calor.

Bom, mas então me vi em Vitória da Conquista. Não tive tempo de conhecer nada. Nesse momento que escrevo, estou prestes a dormir minha primeira noite aqui, depois de ter chegada às 5h40, tomado um banho e um café, trabalhado o dia todo, almoçado num pequeno restaurante perto do hotel e ido ao shopping comer um lanche de noite. Provavelmente vou embora amanhã, de manhã. Apesar disso, estou saindo de Conquista encantada.

Imagine uma situação. Você é uma pessoa normal que trabalha pra caramba, namora, sonha e gosta de estar na rua. De repente, você se dá conta que fica cada vez mais em casa. Isso porque, toda vez que você sai na rua você acaba irritada ou arrasada.

Toda vez que saio em Salvador, sou mal tratada ou desprezada de alguma forma. Quando pego um ônibus, o cobrador reclama se não dou o dinheiro certo e ele tem que ter o imenso trabalho de me dar um troco. Isso quando consigo pegar um ônibus, porque as vezes ele passa e nem pensa em parar, apesar da minha mão esticada quase me provocando uma distensão.

Quando vou num restaurante, a lógica é a seguinte: trate muito, muito bem o garçom e talvez ele até faça o favor de te atender. Não vou ficar dando detalhes sobre minha imensa insatisfação com o atendimento em Salvador, porque amo a cidade e não quero passar uma má impressão do lugar. Mas, apesar das mil qualidades da capital baiana, no quesito atendimento tudo é muito precário. Salvador é um lugar onde você pode apanhar se pegar um táxi e a corrida der menos que 10 reais. Um lugar no qual você nunca vai conseguir trocar uma nota de vinte (talvez nem se sua compra custar 19). Um lugar onde você tem que, muitas vezes, chorar, implorar, se ajoelhar e fazer promessas a Nosso Senhor do Bomfim pra que propiciem que você pague a sua conta.

O povo gaúcho não é melhor que nenhum outro (bom, isso apesar de ser o melhor do mundo, claro, hehe), mas o fato é que estamos acostumados com outra realidade. Não que não se possa ser mal atendido em Porto Alegre. É claro que acontece. Mas aí você não volta mais no lugar e pronto. Em Salvador se eu for deixar de ir nos lugares que fui mal atendida, vou ter que me alimentar de luz e vestir folhas de coqueiro.

Imagine então que, depois de tomar minhas experiências em localidades baianas como regra para o Estado todo, eu chego numa cidade e pego um táxi que, às 5h40 da manhã, conversa comigo, faz o melhor caminho da rodoviária ao meu hotel, mesmo percebendo meu sotaque, e não se chateia por ter que me dar nota e por eu não ter troco. Chego num hotel no qual o recepcionista – possivelmente trabalhando a noite toda – me recebe alegremente, dizendo que estava me esperando, carrega minhas malas pro quarto e faz questão de chamar o táxi para eu ir trabalhar. Este chega em 2 minutos e o taxista é um amor. Quando chego na empresa de meu cliente, só falta colocarem um tapete vermelho pra eu entrar, e rapidamente localizam a pessoa com a qual eu tenho que falar.

Depois, o táxi que me pega na empresa me leva num ótimo restaurante, e me explica como voltar a pé pro hotel. No restaurante, o garçom me atende simpaticamente em 3 minutos e traz uma comida deliciosa em 10, sem errar nem mesmo a bebida que eu pedi. A conta vem em 5 minutos. A nota fiscal que peço vem em 2. E ele ainda se desculpa pela demora. Eu fico tão chocada que penso se ele está debochando de mim.

O táxi que eu vinha chamando, aquele fofo, não pode me levar de volta ao trabalho, mas ele nem me diz isso. Simplesmente liga pra um colega e pede pra ele me buscar. De noite, vou ao shopping, lugar conhecido pelo atendimento frio em suas praças de alimentação até mesmo nos pampas gaudérios. Mas tenho a mais grata surpresa. Passo num lugar com pizzas lindas. Eu não estou afim de pizza, mas paro um minuto pra olhar. Então se aproxima de mim o mais gentil dos atendentes de shopping, me explica da promoção da casa, e eu comento que quero pizza de quatro queijos, porque adoro gorgonzola.

Ele promete meu pedido em 10 minutos, mas este chega em 8, com gorgonzola extra e custando apenas 7 reais. Comer bem, ser extremamente bem atendido, pagar uma bagatela e tudo isso dentro de um shopping, nem com mastercard. Volto no restaurante depois de comer e digo isso ao gentil moço, que fica todo feliz.

Eu também volto pro hotel feliz. Vitória da Conquista é uma verdadeira vitória. Fica na Bahia, mas não se rendeu à idéia que infelizmente domina este Estado lindo de que o cliente é um inimigo. E por isso, ela conquista, mesmo sem praia e sem calor. Conquista me conquistou com seu jeitinho simpático, assim como Salvador me conquistou com seu jeito selvagem e displicente, com paisagens de tirar o fôlego. E eu que andava quase desistindo da Bahia, descobri mais uma vez que a Bahia nunca vai ter só uma face. Ela não é uma verdade absoluta. É uma rede de mistério e simplicidade. Viva Conquista. E viva à Bahia.


1 comentários:

Jota Diogo disse...

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