sábado, 17 de outubro de 2009

Saudades... saudades...

Saudades, ah saudades. Droga de sentimento. Quantas vezes já ouvi que esta palavra é especial. Que só existe em português. Quantas vezes ouvi pessoas fascinadas por haver uma palavra que expressa esse sentimento de falta, de querer algo ou alguém, um momento que passou, uma época que se foi, uma pessoa ausente, um sentimento que não deixou nada. Mas quisera eu que esta palavra não existisse. Queria que a gente nunca precisasse sentir saudades. Que tivéssemos um “vale-mate-sua-saudades”. Uma espécie de bolsa que nos fosse entregue quando nascemos. Você está com saudades da barriga quentinha e segura de sua mãe¿ Não dá nada! Pegue aqui seu “vale-mate-sua-saudades” e passe umas boas horas lá.

Teria que ter um limite de tempo. E um limite de utilização. Isso porque me ocorre agora que, se a coisa fosse assim “free”, ia ter muita gente nunca saindo da barriga da mãe.

Bom, mas as regras de utilização não seriam definidas por esta simples mortal aqui. Deixo isso para o Criador e seus assistentes. O importante é que a gente não precisasse ficar aqui quase morrendo por não ter grana pra visitar a família mais de duas vezes no ano. Não ficasse aqui sentindo uma saudade maluca do amor deles, do carinho deles, das brigas deles até. Do jeitinho de cada um. Da companhia reconfortante daqueles que mais te amam. Na hora que você sentisse essa saudade, poderia pegar seu vale e ir novamente naquele churrasco onde todos estavam reunidos. A música gaudéria pegando, a carne cheirando, de repente vem seu pai com um avental de churrasqueiro realmente ridículo e serve uns petiscos num prato cheio de farinha. Sua mãe vem trazendo a maionese prontinha da cozinha, ralhando sobre como é difícil subir aquelas escadas. Seu irmão peste tenta empenhadamente dar um jeito de te irritar, e quase consegue quando joga maionese no seu cabelo. Sua irmã acorda com cara de ontem e começa a te contar quantos gatinhos conheceu enquanto você, que ainda não pode sair de noite, ficava em casa dormindo cedo. Sim, eu sei o que você está pensando. Depois dessa amostra grátis sobre família, possivelmente já vai estar agradecendo por estar bem longe. Só que você também sabe que não é bem assim. Tem as gargalhadas, as conversas, encostar a cabeça no colo de mamãe, ver o sorriso de papai, partilhar a vida com os irmãos. Fora o churrasco em si, que era digno de nota.

Saudades ainda¿ Que tal usar agora seu vale para aquele dia em que você levou suas duas sobrinhas pra comprar presente de Natal. Fora o medo de que elas se soltassem da sua mão e fossem atropeladas, o pânico de perder uma das duas pestinhas na loja enquanto elas corriam desesperadas diante de tantos brinquedos e a longa explicação sobre sua situação financeira e contabilidade, pra uma criança que te ouve sem entender nada, enquanto olha com uma cara desolada pra uma boneca que parece um sapo e que custa uma fortuna, esse foi um dia maravilhoso. Afinal teve a sensação de segurar aquelas mãozinhas tão confiantes em você, a alegria de ouvir a falação das menininhas enquanto caminhavam pela rua, a alegria de ver a felicidade delas e olhos brilhantes com os presentes. E o amor¿ Ah, o amor tão imenso que encheu todo seu peito e se espalhou pelo corpo, pela alma, quando você parou pra comprar sorvete e viu elas ali sorrindo, todas lambuzadas de calda de chocolate. É, seria bom voltar.

Ou também você poderia voltar naquele dia no qual ficou sozinha em casa com sua cunhada, e vocês conversaram até altas horas e você, que nunca consegue fechar a boca, falou sobre toda sua vida e contou mil histórias, e ela te olhava fascinada e parecia – incrível – querer que você falasse ainda mais. E então você parou um segundo e ficou tão feliz por uma pessoa tão legal e boa ter entrado assim de presente na sua família.


O vale-saudades poderia evitar que você tivesse que ver um amigo partir, ou deixar um amigo longe e pensar que não sabe como vai poder ver graça em andar por aí sem ser na companhia daquela pessoa que tanto te fez sorrir, que tanto te compreende. Você poderia acionar seu precioso vale e voltar naquele dia no qual sentaram na praia e você revelou aquele segredo absurdo, e teve certeza que sua amiga ia sair correndo ou te olhar com a maior cara de “ihhh, essa é maluca, coitada”. Mas não. Ela te olhou com o olhar mais doce do mundo e disse apenas: “eu também sinto isso”. Você poderia voltar no dia no qual correram ruas no carnaval, e ela parecia tão fascinada com tudo, e pularam juntas parecendo duas crianças –, mas na verdade são duas mulheres respeitáveis na casa dos 30 – e sorriram como se tivessem acabado de comer chocolate pela primeira vez. Ou aquele dia no qual você pensou que ninguém poderia entender a dor que você estava sentindo, mas ela segurou sua mão e apenas lhe deu um abraço, e você sentiu que nada poderia ser mais compreensão que aquilo.

Poderia voltar no dia que estava em uma casa cheia de gente, e todos pareciam ser tão maravilhosos, e alguém pegou um violão e todos cantaram, alguns horrivelmente desafinados, mas, no fim, você sabia que nunca mais seria só, porque tinha amigos. Poderia voltar no dia que passou na praia ao lado de uma amiga que você não via há tanto tempo, mas, conversando, você percebeu que aquela amizade jamais ia morrer.

Com seu vale, você ainda poderia voltar em luais no qual olhou nos olhos de alguém e percebeu que podia amar pela primeira vez na vida. Em dias nos quais você mandou bilhetinhos de amor pro seu colega de aula e ele veio e teu um beijo bem ali na frente de todos. Poderia voltar pra aulas de tango das quais você saiu de mãos dadas e rindo tolamente, sabendo que estava apaixonada. Poderia voltar pro dia no qual recebeu uma mensagem de celular dizendo “eu te amo” e ficou fascinada e morrendo de medo pelo que estava vivendo.

E se tivesse esse vale... ah eu poderia beijar esse vale! Isso porque ele poderia trazer de volta aquele dia no qual você ficou sentada na frente de uma pessoa que te gerou, com quem viveu sua vida toda, e conversou até de madrugada sobre a vida, os sonhos e seus pensamentos, e no fim ouviu ele dizer: “nossa, o tempo passou tão rápido! Eu nem percebi.” E então você soube que algo tinha se passado e que aquele amor de pai e filha era mais. Era também um amor de amigos. Poderia voltar em momentos nos quais vocês dois viajaram juntos e se sentaram em praias, restaurantes ou bancos de praça, e apenas desfrutaram da companhia um do outro.

Na falta de um vale-saudades, resta reviver na lembrança... resta viver bem cada minuto pra que ele valha sempre uma lembrança. E dizem ainda aquelas pessoas que se deliciam com as saudades, que, se sentimos falta, é porque vivemos bem. Então, eu vivi bem demais. E já que ainda estou vivendo, que venham as saudades!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A crônica inacabada

Sobrevoando o oceano rumo ao meu amado e sedutor Brasil, me sinto, de repente (e até parece que isso é raro), tentada a refletir um pouco sobre minha vida e tudo que aconteceu, e ainda há de acontecer, pois minha crônica ainda não está acabada. Belos e interessantes, por vezes insensatos, por vezes fascinantes, são os caminhos que se apresentam na vida.

Ao realizar parte de um sonho e conhecer um pedacinho da Europa, não pude deixar de pensar em algo curioso e, por que não, bonito. Há anos atrás, um menino saia do prédio antigo do então iniciante, mas hoje principal jornal da cidade de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, com sua pilha de jornais embaixo do braço, seu sorriso pequeno, mas verdadeiro, no rosto, e andava pela cidade a entregar seus jornais. O nome deste menino era Euclides, que, muitos anos depois casou-se e teve três filhos – Cinara, Litiane e Thiago. Abandonou Novo Hamburgo pela capital Porto Alegre, viveu, criou sua família, e encerrou sua crônica em 04 de abril de 2001, jovem – aos 53 anos -, mas com o louvor de um lutador que vence muito, mas não perde a humildade. Meu pai Euclides teve o ponto final de sua crônica colocado por um câncer.

Bom, mais de 40 anos depois do menino Euclides entregar seus jornais por Novo Hamburgo, sua filha Litiane forma-se em jornalismo na cidade catarinense de Tubarão, mas, depois de muitas idas e vindas, vai parar onde? Em Novo Hamburgo, no mesmo jornal – hoje já em prédio novo -, na redação, e, um ano e meio depois de ingressar na empresa, escreve uma crônica sobre esta sutileza da vida, enquanto sobrevoa o oceano, em retorno da Europa, numa viagem feita a trabalho.

Então pergunto: há algo mais fabuloso que escrever diariamente a crônica de nossas vidas? Hoje, esta que escrevo não tem fim, está inacabada, mas não como algo que se deixou de fazer, mas sim como algo que a cada dia podemos acrescentar.

Acho que é preciso ter atenção a nossas crônicas inacabadas. Enfeitá-las, utilizar recursos para enriquecê-las, procurar palavras que se encaixem, escrever corretamente. Assim, quando vier o inevitável ponto final, ela será uma bela obra, que há de enriquecer outras crônicas, que ainda estão inacabadas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Você

Venha você
Assim sem querer
Venha agora você
Que pode me dar a mão
Que pode não me deixar só
Quando meu coração se encolhe
De frio e agonia
Nessa noite recorrente

Venha você
Assim sem querer
Venha para sempre você
Que pode fazer meu corpo tremer
E meu coração se agitar
De amor e alegria
Nesse dia tão contente.

domingo, 2 de agosto de 2009

Pelo dia dos pais

Saudade não é apenas saudade.

Saudade é a lembrança de todas as coisas, todos os momentos, todas as palavras, os sentimentos, as vivências que tivemos e que jamais são esquecidas.

Saudade é o lamento por todas as coisas que deixamos de falar, de fazer, pelas madrugadas que não ficamos mais uma hora conversando, pelas viagens que deixamos de fazer, pelos lugares que deixamos pra visitar da próxima vez, que não existiu.

Saudade é a consciência triste de tudo que eu vivi depois que você partiu, e do quanto eu gostaria de ter partilhado com você, é pensar, em um momento de dor, do quanto seu ombro seria amigo, e em um momento de alegria, do quanto a sua presença o tornaria ainda mais alegre. Saudade é saber que todas as conquistas serão sempre marcadas pela falta que teu sorriso amigo pra me dizer que está feliz por eu ter conseguido.

Saudade é a certeza dolorosa de saber que existe toda uma vida pra ser vivida sem você, e que ela será boa sim, mas não terá sua presença.

Saudade é o amor, o amor que nasceu com a gente, o amor que foi construído, o amor que foi descoberto assim, de repente, como se não soubéssemos que poderia existir mais amor além de pai e filha, e a saudade também é esse amor – o amor de amigos, o amor de almas irmãs que só depois é que vimos.

A ti, meu pai, minha saudade.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Nossos olhares













Você pensa que eu queria ser uma âncora
Mas eu queria ser uma pluma
Pra ficar planando irresponsável pelo teu rosto
E te fazer rir e se inquietar

Você me diz que eu queria ser um porto
Mas eu sei que queria ser uma vela
Pra me estufar de vento e poder
Bem pra longe te levar

Você me acusa de querer ser uma algema
Mas não sabe que eu já nasci pássaro
Só queria ser maior
Pra nas costas poder nos vôos
Sempre te carregar.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Gato e rata, gata e rato



Acorde rápido.
Abra bem os olhos.
E fique atento.

Não deixe que palavras doces te façam ficar de olhos fechados.
Não deixe que sorrisos te façam ficar iludido.
Não deixe que momentos de sintonia não te deixem perceber que já não somos os mesmos.

Você, que tanto quero e desejo
Abra seus olhinhos pequenos
Pra ver o quanto de mim já escorreu pelos seus dedos
O quanto de nós já se perdeu no caminho
O quanto de tudo já virou nada

Me deixe voar livremente pelos teus labirintos
Pra que neles eu possa reencontrar coisas que quero
E me deixe partir sem ter medo
Quando a hora chegar sem aviso

Em troca, te dou o que queres sem saber que queres
E te prometo uma amizade sem fim
E tento cumprir mesmo quando já não quiser

Mas antes desse ponto que virá tão final quanto nunca
Me deixe pegar nos teus frios dedos
E pular no teu colo pequeno
E brincar de menina-mulher
Com você, que me veio assim tão perfeito.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Luto pelo jornalismo e pela educação


Na hora de reclamar, todo mundo reclama. A mídia é ruim, os jornalistas são fracos, antiéticos, os erros da imprensa são gritantes etc, etc, etc. Mas também, como isso poderia ser diferente em um país onde a educação está no pé da lista de importância para os nossos governantes?

É inadmissível aceitar que o diploma não seja exigido na profissão de jornalista. Não adianta vir com os clichês. O jornalismo é uma arte? Besteira. Por acaso quando um pintor faz um quadro ele está lidando com a vida de pessoas? Ele pode fazer com que verdades sejam tidas como mentiras, manipular fatos, mudar a vida de uma ou mais pessoas por uma informação incorreta?

Então não me venha com esta historinha de dom. O jornalismo é 95% trabalho braçal - apuração, análise de fatos, questionamento, reflexão sobre o tema tratado. O resto vem do dom de escrever. Na verdade tem muita gente aí fazendo um jornalismo certinho, bem apurado e honesto sem nunca ter tido dom algum pra escrever. O escrever bem é apenas a embalagem do produto, a maneira de despertar e prender o leitor. O conteúdo é todo técnico e envolve noções de ética, de como apurar uma notícia, do que é notícia, de como interpretar dados e informações. Você aí (não os jornalistas, por favor) sabe o que é notícia? Sabe como apurar uma notícia? Sabe como manter a ética diante de um fato jornalístico? É claro que não, não fique triste! Você não tem que saber. Afinal de contas, não fez faculdade de jornalismo, local onde aprendemos estas coisas. Eu também não sei fazer um projeto arquitetônico, operar um apêndice, etc, etc, etc.

Mesmo pra se escrever um texto jornalístico existem técnicas. Ou será que quem tem "dom" para escrever já nasce sabendo o que é um bom lead e como escolher um gancho? Se nasce sabendo, acabei de descobrir que não tenho dom pra escrever, pois eu só aprendi isso nas aulas do curso de jornalismo.

Estou aqui dizendo que uma pessoa vai se tornar um bom jornalista só por fazer faculdade? Claro que não. Mas por acaso todos os médicos que você foi na vida eram bons só por terem frequentado a universidade? Você nunca pegou um daqueles que nem olham na sua cara e dizem que você está com uma virose? Pois é. E alguém acha que não precisa ser graduado pra exercer a medicina?

A necessidade de se ter o embasamento só fornecido na universidade para se exercer a profissão de jornalista é mais profunda do que se pode pensar numa análise superficial. Desde que eu era criança já se falava no poder que a mídia possui em nossa sociedade como hoje ela é constituída, e, de lá pra cá, isso só aumentou, com a utilização cada vez mais ampla da internet. São tantos casos que podemos citar nos quais a falta de capacidade do repórter de apurar corretamente uma informação, a falta de sensibilidade do editor ao publicar uma matéria "capenga" ou a falta de ética de um jornalista causou danos à imagem e mesmo à vida de uma ou mais pessoas.

Como pode então se aceitar que não haja a necessidade de que os profissionais que atuam na imprensa sejam qualificados através da educação para isso? Bom, aí você vem me dizer que tem muita gente atuando na área que não é formado e é muito bom. Ora, claro que tem. Ninguém esta desprezando a necessidade e a força da prática - isso aliás em qualquer profissão. Mas a qualificação educacional para se exercer uma atividade é quesito básico, eu não entendo como alguém possa negar isso. Eu mesma tive uma editora "não diplomada" que era fabulosa. A melhor jornalista com quem já trabalhei, que seria certamente ainda melhor se tivesse sentado nos bancos de uma universidade, disso não tenho dúvida.

Na verdade, até o momento só falei basicamente da profissão de jornalista exercida dentro de uma redação. Não podemos esquecer as outras funções que os profissionais de comunicação assumiram, que ganharam força nos últimos anos. Como um profissional aprende a fazer assessoria de comunicação? De onde ele tira as técnicas, a base teórica necessária pra se adotar ações e ter idéias que contribuam na melhoria, por exemplo, da comunicação interna de uma empresa?

Isso sem se considerar as perdas para o próprio desenvolvimento da comunicação social no país. Afinal de contas, é nas universidades que nascem novas teses sobre um assunto, que são desenvolvidas possibilidades, é dentro delas que um tema é aprofundado e renovado. Ao desestimular a busca pela universidade, se desestimula também a renovação do conhecimento.

Eu poderia escrever páginas ou falar horas em defesa do diploma para os profissionais do jornalismo (gente! acho que tenho dom pra direito! ah, mas pra advogar precisa de diploma... que pena...). No entanto, creio que cada um, por mais que tenha opiniões diferentes das minhas em relação ao tema, pode chegar a uma mesma conclusão triste - a decisão do STF é um desestímulo à educação, em um país que precisa exatamente do contrário. Fala-se tanto que educar é garantir um futuro melhor... que pena que isso seja só conversa bonita. Na prática, a educação é cada vez mais desvalorizada no nosso país.
* A ilustração é do meu talentoso e sutil amigo Hector Salas.